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Porta secreta
Zé Ramalho - 14/11/2005

Depoimento
Jorge Salomão - 17/02/1998

Pássaro cativo
Zé Ramalho

Peleja de Zé do Caixão com o cantor Zé Ramalho
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Peleja de Zé do Caixão com o cantor Zé Ramalho


Zé Ramalho

a consciência do homem
tão cheia de julgamentos
aplaude quanto condena
o povo nesses momentos
um doutrinar inseguro
no poço dos pensamentos

as normas dos tratamentos
o jeito de se comportar
um medo dos preconceitos
de quem quiser se educar
um cadafalso maduro
em cada praça e lugar

vivemos de acreditar
no transe das gerações
a mesma nota maldita
por trás das religiões
um povo mais inseguro
escutando os tais sermões

o doutrinar dos padrões
que tanto se apregoa
impede o dom dos instintos
que dentro sinta uma boa
desrepressão do mistério
que fere fala e magoa

um deles não vai à toa
nem na direita vai dar
nem outro lá na esquerda
tem planos de se salvar
na sua grande opção
nas horas de pelejar

isso é o modo de opinar
onde fomos competir
nos colocaram no ato
de cantar e distrair
colegas e inimigos
foi só o que eu consegui

mas nunca me convenci
que é essa a afirmação
que traz a felicidade
em prol da competição
dos companheiros legítimos
que vou contar uma lição

a peleja de zé do caixão
com o cantor zé ramalho
foi grande acontecimento
mexeu com todo o baralho
as forças deles se uniram
para fazer um trabalho

não houve nenhum empalho
durante a conversação
ramalho disse pro zé
pode pegar o caixão
que eu vou buscar a viola
e trato da afirmação".

o motivo e a razão
desse encontro medonho
foi uma capa de disco
que tem um valor tamanho
pela sua grande mensagem
no seu visual estranho

e seja quem tiver ganho
no final dessa história
lhe digo que foi incrível
o que ficou na memória
as cenas se sucederam
todas cobertas de glória

o diabo tem na escória
a sua grande torcida
e ela aqui se defronta
com a peleja da vida
o outro lado do negro
e o branco mar da saída

o homem tem a partida
o disco tem sua capa
o canto tem compromisso
e nenhum deles escapa
do simbolismo existente
em cada canto do mapa

pode aperrear o papa
ir de encontro aos querubins
incomodar em distúrbios
intestino pés e rins
interessar o governo
a consumar os seus fins

mas josé mojica marins
é um grande ser artista
que fez de um personagem
seu forte ponto de vista
um homem que encara a morte
com uma visão realista

pro povo mais populista
que queiram analisar
o diabo é algo assim
crendice bem popular
exu de barba e capote
e unhas para agarrar

e se o diabo vem cantar
contra um dono do céu
que é o nome de um tal disco
envolto em paz e véu
os dois bons personagens
irão sentar-se no réu

e entre o mal e o fel
tão conhecidos no mundo
serão eles violeiros,
num pelejar mais profundo
não haverá vencedor
e nem final moribundo

e seja quem for mais fundo
já deu para perceber
o que o nosso zé do caix‹o
irá na capa fazer
um diabo bem cavernoso
na pele dele descer

e se isso acontecer
não tenha medo irmão
é ele próprio o mojica
mantendo a encarnação
de unhas garras e barbas
de capa preta e bastão

conhece com perfeição
cada segredo do mapa
de qualquer uma família
cidade nação ou lapa
conhece todas histórias
de cada ser que ele rapa

de mim é que não escapa
de todos meus sentimentos
que é coisa que os cantadores
empregam nesses momentos
escudos de energia
que aguçam seus pensamentos

tem ele conhecimentos
tem fogo pelos cabelos
as garras sujas de sangue
e o ódio nos cotovelos
e seus rugidos acusam
a raiva que tem nos pêlos

nesses fins de novelo
a calma vem controlada
pois o diabo não avisa
quando dará uma chifrada
o cheiro do seu enxofre
deixa a alma envenenada

mas quem faz a empreitada
com luzes do improviso
merece ser repentista
que fala com mais juízo
das coisas que o mundo teme
do gozo e do paraíso

pois pro diabo é preciso
dar um grito furioso
que levantou toda a relva
que grito mais pavoroso
e o cantador se prepara
para enfrentar o tinhoso

nesse momento grandioso
que tem filosofia e fama
verá que dois cantadores
a nenhum deles exclama
e o povo se junta em volta
para ouvir quem reclama

saiu fogo da grama
pois zé do caixão se aprontou
para ouvir os repentes
que o zé ramalho aprontou
em versos milimetrados
com toda força cantou:

R - eu vim porque Deus mandou
cantador sou do sertão
sei tirar fogo do frio
sei domar a escuridão
e quando eu faço o meu repente
espalho fumas no chão

D - pois diga seu sabidão
que a sua força é mentira
por duas vezes somente
a sua voz me atraíra
a provocar-me mistérios
que soltarão minha ira

R - eu tenho-o na minha mira
seu meio-rosto e seu passo
vou danar-lhe meu repente
nas costas, no espinhaço
que vou fazer de você
um monturão de bagaço

D - esse cabra é um fracasso
vou mandar a sua conta
abra os olhos vagabundo
pois o diabo quando apronta
leva todos pros infernos
e somente ele amedronta

R - você só tem a desconta
dos coitados inocentes
que sofrem pelos pecados
das suas almas dementes
vendidas pelos degredos
das tuas mãos indecentes

D - esses versos prepotentes
para mim soa à elogio
pois todos sabem que faço
do meu reinado sombrio
pessoas sofrendo horas
passarem sem calafrio

R - vou queimar o teu pavio
mais cedo do que tardar
e essa tua cara tão feia
com medo vai se virar
no branco desses defuntos
que ninguóm pôde enterrar

D - esse teu matraquear
só sai da língua pra fora
pois o homem que é do céu
nunca me meteu a espora
e se eu me agarro com ele
com medo de mim implora

R - quero ver se a sua hora
virá dizer o seu fim
se com o outro foi mais fácil
comigo será ruim
se estou de frente pro diabo
e ele de frente pra mim

D - distante estou de Caim
espere eu me apoquentar
se eu já derrotei o céu
imagine o seu cantar
que não traz força nenhuma
nem poderá derrubar

R - isso é que vamos trocar
no meio da discussão
deixemos outros de lado
e vamos a nossa questão
que eu já estou de saco cheio
de tanto the dar atenção

D - ora vejam se há razão
desse cabra me enfrentar
com todos enxerimentos
já dei em dez sem cessar
e imagine um fraco desses
vir aqui me aviltar

R - eu vim aqui pra lhe dar
castigos que bem mereces
você não é um sabido
e nem tudo que conheces
e o povo tá assistindo
à surra que tu padeces

D - você não me oferece
a contenda que eu preciso
meus olhos queriam ondas
de carnes no paraíso
e voltam as minhas sombras
no dia do meu juízo

R - vou lhe dar último aviso
cabra ruim mal e nojento
você não tem outro ofício
que não seja um avarento
ladrão de almas penadas,
o mais vil dos sentimentos

D - não tolero esses momentos
vou daqui me retirar
vocês não deram ouvidos
às coisas que eu vim contar
mas foram tão arredios
que o diabo vai castigar

R - você não vai desfilar
nos álbuns da nossa vida
nem almas verão teu rastro
não mais serão perseguidas
só vamos ver a surpresa
de quem venceu a partida

o diabo faz na medida
um rasgo de fabulagem
foi louco que deu a vida
no poço da vadiagem
um parto de malefício
no porto da malandragem

e seu eu cumpri a mensagem
que o dono do céu me deu
um pouco da sua força
em minha frente desceu
em partes mais dominantes
por atos que ofereceu

e se o diabo não morreu
nada disso mais importa
pois ele foi imperfeito
e do meu lado ele não corta
e se não gostou do meu canto
ali mesmo ele aborta