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Porta secreta
Zé Ramalho - 14/11/2005

Depoimento
Jorge Salomão - 17/02/1998

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Zé Ramalho

Neon Lupo de Gás morava em pleno Manaíra há quase dez anos. Morava é um adjetivo, pois que tinha por teto uma pobre armação de caibros e palhas de coqueiro, acertados de um modo qualquer e frágeis, como "moleira" de recém-nascido.

Lupo não fazia outra coisa senão "inventar". Tudo que imaginava, fazia. Inventava um absurdo-oculto. Às vezes quando saía, os moleques mexiam com ele. Neon não era um velho neurótico, mas ficava irritado quando lhe chamavam de Pardal. Não gostava disso. Ele era Neon Lupo de Gás, o protótipo atual de Leonardo da Vinci, saído há quase dez anos da Colônia Juliano Moreira, onde passou toda a sua vida até então. Solto, preparava-se para mostrar à Paraíba e ao mundo, todo o conhecimento que obtivera naquela casa de "futuristas". Era uma casa de CRIAR.

Seu último projeto era "muito louco". Projeto secreto. Uma soma de tudo que já imaginara da Terra, da vida, da morte, do Ser. Iria mostrar a todos uma revolucionária invenção: "A CADEIRA QUE VOA". Ah! e ninguém mais sabia disso, à exceção de algumas baratas cascudas que ele criava dentro de uma caixa de sapatos. Eram ótimas companhias, dizia ele.

A cadeira está pronta há quase um mês. Faltava o acabamento final: alguns polimentos e pronto! Iria fazer o teste prático que o lançaria como gênio do futuro em todas as enciclopédias da história e do tempo. Guardava no fundo da choupana dois litros família de Coca-Cola deteriorada, que seriam usados como combustível. A bateria perfeita que encontrou para mover o invento era um pequeno cérebro de pombo, que ele conseguiu conservar intacto à custa de gelo e serra de madeira. Segundo Lupo, o cérebro moveria qualquer nave terrena. Era um processo de Ioga-Mental. A concentração do vôo de um pássaro mentalizado no cérebro de um homem. A cadeira serviria de móvel relansante. Os miolos do pombo seriam incrustados na cadeira para que ela servisse de membros da ave. Apenas de armação. Os impulsos concentrados seriam o motor. Um veículo que levita, que voa. Era telepatia-dirigida, dizia Neon Lupo de Gás. Um pássaro humano.

Neon Lupo não sabia de uma coisa: quem teria lhe dado esse nome? Nunca soube quem foram seus pais. O povo dizia que assim era chamado por causa de sua magreza. Um "bicho" mais atrevido chamou-o um dia de Tripa Fosforescente. Maldade grossa, que ele guardou num baú profundo, fechado a exemplo das herméticas salas do Apocalipse.

Passaram-se três dias e Neon aperfeiçoou seu invento. Poliu-o com a saliva fabricada em sua própria boca. Abasteceu-o com o conteúdo dos litros de Coca e quedou-se um instante para contemplar o seu invento. Sentiu necessi-dade de um nome para batizar a nave. E com um brilho estranho nos olhos chamou-a de PÁSSARO CATIVO.

Fez os últimos preparativos, sentou-se nela várias vezes e marcou para o dia seguinte a prova final. Nessa noite Neon Lupo de Gás não conseguiu dormir. Ansioso, esperava o olho do dia. Faminto, engoliu todas as baratas. Exultante, ouviu os berros do falo.

E às nove horas dessa manhã, Neon ajustou os controles da máquina com a vibração do seu pensamento. Precisava obter uma perfeita concentração para conseguir a sintonia do pássaro. O cérebro do pombo palpitava, ativado pela Coca deteriorada. Antes, achou por bem derrubar as quatro paredes que o rodeavam. Ele e o Pássaro Cativo não precisariam mais delas,pois a faina o esperava e, com ela o conforto. Com fúria, empurrou as frágeis paredes e elas desabaram como papel.

Lupo agora estava sentado na cadeira, seu olhar era mais estranho ainda. E ouviu-se um ruído que saía do invento, semelhante, ao de muitos pássaros batendo assas. Nessa hora os moleques correram da rua. Pardal passara a ser uma as-sombração, tamanho era o absurdo daquela visão de conto de fadas.

Neon fitava um ponto inexistente. Os olhos não batiam, nem ouviria qualquer ruído que se fizesse a seu redor. Então a nave começou a levitar. E, lentamente como num palco de magia, parou a uma altura de três metros do solo.

A essa altura, os vizinhos e demais habitantes do bairro corriam para ver aquela aparição no céu. Para eles era o fim que se anunciava. Neon sentiu ter adquirido o controle total da mente da ave. Seu cérebro era agora o de um pombo aprisionado, louco para voar. Houve a transmutação. Afinal foram anos e anos de prisão interior e exterior. Olhou com desdém aquelas pessoas lá em baixo e impulsionou o pensamento para a frente. A nave deslizou no ar como Trenó de Papai Noel. Lançou uma vontade de 50 km e a velocidade foi escrava do seu pensamento. Atingiu a praia e, com um olhar para a direita, fez com que o aparelho seguisse dócil a rota por ele determinada.

Contemplando Tambaú de um ponto onde era o único mortal a fazê-lo, Neon sentiu um prazer imenso. Alguns banhistas desmaiavam, primeiros carros de encontro às árvores e o Pássaro Cativo ganha toda a atenção da praia. Neon sentiu que sobrevoava o Hotel Tambaú. E deu a primeira exibição do seu engenho, com um leve desejo desceu em looping, descrevendo uma volta triunfante no interior do hotel. Alguns turistas mais otários acharam interessante, outros continuaram batendo fotos. Só um garçon do bar o reconheceu. Não pôde esconder o seu assombro ao ver Neon sentado naquela coisa que voava e sua reação foi chorar descontroladamente. Neon indicou uma nova rota com seus dois olhos fundos e estranhos,e o pássaro seguiu-o, fiel e obediente.

A uma altura de 5 metros do solo, Neon sentiu vontade de testar o controle de velocidade da nave. Pensou em 100 km e obteve-os facilmente. A mente e a nave eram um pássaro só. E foi a 100 km por hora que Neon deu um pique do início da Epitácio Pessoa até o seu final, num magnífico vôo de precisão e controle. Reteve a velocidade como um rolo de papel higiênico.

Neon pretendia dar, no centro da cidade, sua demonstração máxima do engenho. Deslizou calmamente pela avenida Tambiá, retendo 40 km como velocidade. Dezenas de carros espavoridos já o seguiam, buzinando loucamente. Incrédulos, batiam nas árvores. Atropelos, gritos e berros deram música aos ouvidos de Neon. Pessoas tentavam correr atrás procurando descobrir o lógico do que estava acontecendo. Chamaram a rádio-patrulha. Chamaram o corpo de bombeiros. Ambos recusaram-se a vir porque acharam o motivo ridículo de se crer.

Em frente ao Colégio Pio XII Neon concentrou-se em 30km mas concentrou-se a uma respeitável altura de 50 metros. Segue levemente a rua Duque de Caxias. A multidão, atrás, seguia esbugalhada. Um pânico de terremoto. O pássaro seguia, indiferente a tudo. Chegando no Viaduto parou em pleno ar, assombrando ainda mais a platéia abismada. Ali ficou durante alguns momentos, estático. Neon aproveitava o ensejo público para se apresentar ao povo como inventor do século XXI. Levantou a mão num gesto de quem pede silêncio. Tudo calou. Os edifícios daquela área já se encontravam apinhados de gente pelas janelas. Parecia que os prédios iam vomitar os curiosos. Um silêncio de tumba se fez. Neon berrou a plenos pulmões:

Ouça-me, povo da Paraíba. Lembram-se de mim? Sou Neon Lupo de Gás. Um dos que pertencem à classe de Caixa D'Água, de Mocidade, de Vassoura, de Pedro Corredor. Hoje é um dia diferente. Trago uma invenção, minha, para que todos vejam como prova de minha capacidade de inventar. Esse aparelho no qual estou sentado, é de minha criação. Com ele, nosso Estado será respeitado como berço das invenções do futuro e EU serei respeitado também. Não seremos mais capacho da ignorância dos nordestinos. Quero que as autoridades me ouçam com atenção e respeito para que possamos estudar mutuamente os inestimáveis serviços que este aparelho pode oferecer à humanidade. Continuo agora minha demonstração. Por favor procurem se controlar. Vejam evitando atropelos. Adeus!

Dito isso, retomou o movimento da nave, dirigindo-se até o Palácio da Justiça onde contorna a praça, causando novamente o impacto, na lógica acomodada. Em frente ao prédio da Assembléia, numa manobra digna de um piloto espacial, Neon encostou o aparelho junto à parede e deteve-se para admirar os símbolos de aço que formavam o mural da fachada de um prédio. Um dos símbolos era um pássaro, os outros pareciam-lhe como folhas caindo.

Lá em baixo a multidão era uma só grande boca aberta, a baba corria como regato. Os olhos de todos tremiam, incrédulos.

Néon já se sentia cansado e desejou voltar. Voltar para onde?

Sua cabana não exisita mais. Teria que procurar um local adequado para pousar o Pássaro Cativo. Sua mente pedia repouso e calma. O aparelho tomou a direção do Parque Solon de Lucena. Chegando à Lagoa, num orgulho próprio de vencedor, descreveu nova volta olímpica, deixando, na periferia, pessoas gesticulando e correndo.

Em seguida tomou a ladeira que vai dar no Liceu a uma velocidade lenta, para que os estudantes também o vissem. Desejava que os jovens o apoiassem o quanto antes. Todos os alunos abandonaram as classes em balbúrdia e "zorra". – Um homem sentado numa cadeira passou voando ali, mesmo em frente deles! – É incrível! rosnou uma "cocota"! – "Porra"! gritou um moleque. – "Meu Deus"! gritaram as senhoras. Criou-se imediato número de pessoas a se chocarem e a se empurrarem, em pânico. Era uma visão de Nostradamus.

A passeata seguiu incólume atrás do aparelho. Sempre crescendo e sempre rugindo. Ao cruzar o sinal da Maximiano Figueiredo, Neon ouviu um apito do guarda de trânsito. Voando a 3 metros de altura,seu vôo passou como nuvem, por cima do cruzamento.

O guarda atirou bem na cabeça de Neon Lupo de Gás. Com um revólver que puxou da cintura. O baque do aparelho fez-se ouvir, caindo no terreno do prédio do DER. Neon, com os miolos estourados, parecia um manequim, depois do incêndio. Seus olhos ainda eram estranhos. O Pássaro Cativo se espalhou em pedaços pelo gramado. A multidão cercou o local. Grande Babel se estabelece, entre as diversas versões do acontecido. Chegam as autoridades. A cabo de instantes controlam a sinagoga. Trouxeram o guarda que desferiu o tiro mortal. Um moreno suado e bárbaro, pelo jeito de falar.

– Porque atirou no rapaz? perguntaram-lhe.

– O sinal estava fechado! respondeu o guarda.